Lyna Bean*
Um dia desses, encontrei a Dani no shopping. Paramos para
tomar um café e fui logo perguntando o que ela andava fazendo nos
últimos meses.
Rapidamente, ela começou a falar sobre a última novidade.
Disse que se matriculou numa das melhores academias de sua
cidade, com dois objetivos principais: livrar-se do personal que lhe
impunha horários fixos de treino e arranjar um paquera.
Continuou falando que, comprou malhas novas e os tênis que
estavam em alta no momento. Estava pronta para a estreia!
Dali por diante, fiquei quieto só ouvindo sua narrativa acerca da
nova academia. Pedi mais um café e disse: - O que você tá
aprontando por lá. Conta tudo!
E assim ela começou:
No primeiro dia, após os procedimentos de praxe –
interrogatório sobre sua vida fitness, impedimentos físicos e
objetivos –, um estagiário, após muitas intervenções suas (“este eu
não posso: inflama minha pata de ganso; esse também não: causa
dor na minha lombar; aquele outro muito menos: tenho tendinite
calcárea com bursite no ombro esquerdo”), prescreveu seu treino,
que foi impresso para acompanhamento apenas nos dois primeiros
dias.
Nos dias seguintes, como já tinha memorizado a ordem das
máquinas, quando entrava no salão e um estagiário se aproximava
dela dizendo: - O que vamos treinar hoje? Já imprimiu seu treino?
Ela num tom entusiasmado, respondia: - Full body. Tá tudo aqui no
HD. Dizia enquanto batia com o dedo indicador na sua própria
cabeça.
Começava a caminhar para pegar os pesos do primeiro
exercício quando ouviu: - Se precisar de algo, é só me chamar,
Senhora. Respondeu: - Obrigada, querido! Embora, em pensamento,
tivesse dito: “Senhora é a sua vovozinha.”
Enquanto executava o primeiro exercício, observava, por meio
do enorme espelho à sua frente, grande parte das pessoas que
estava treinando. Chamou-lhe a atenção, primeiramente, três
homens, na faixa dos 30 aos 40 anos, barbas muito bem feitas,
cabelos bem cortados e o de um deles feito escovinha. Eram super
malhados, de roupas coladíssimas, todas elas numa perfeita paleta
de cores, das quais não fugiam nem os acessórios, como meias e
bandana ou faixa nos cabelos. Do seu lado esquerdo, podia ouvir as
vozes finas de dois rapazes com aparência e vestimenta
semelhantes aos anteriores. Do lado direito, o cabelereiro mais
famoso da cidade malhava com seu personal trainer. Atravessando
a sala para mudar de máquina, deparou-se com um homem mais
velho, barrigudo e com aliança. Mais adiante, com outro bem obeso,
que suava aos pingos, ao fazer sua série, orquestrada por um
personal.
Após mapear oitenta por cento dos homens que treinavam e
concluir que setenta por cento deles era homossexual, vinte heteros
e casados ou obesos e dez muito jovens, passou a observar as
mulheres já com pena delas que, mesmo mais novas, não tinham a
menor chance de arranjar um paquera naquele local. Esse novo
olhar surpreendeu-lhe ainda mais, pois, excluindo as mulheres que,
assim como ela, se encontravam na faixa dos cinquenta mais, e uns
dez por cento de gordinhas, todas tinham corpos excessivamente
malhados, para não dizer masculinizados, a maioria delas com
evidentes traços de consumo de hormônios masculinos. Olhava tão
admirada para aqueles corpos, procurando uma sobra de gordurinha
nas costas, a flacidez da parte interna das coxas ou algumas
celulites, sem nada encontrar, que, certa vez, uma delas passou a
lhe encarar. Ela com vergonha e com medo de estar sendo flertada,
saiu de fininho do aparelho que se encontrava indo para no lado
oposto da sala. Divertia-se com aquilo tudo, ao mesmo tempo em
que lhe parecia muito estranho. Olhava ao redor tentando encontrar
alguém com esteriótipo semelhante ao seu (pessoas que não
aparentassem ser fisioculturistas), mas os que conseguiu identificar,
homens ou mulheres, usavam fones de ouvido. Ela queria conversar,
trocar ideias, comentar sobre algum exercício ou máquina, mas
ninguém estava disposto a isso. Assim, seguia seu treino, falando
em pensamentos e rindo sozinha. Talvez até fizesse caras e bocas
diante do que via, precisando controlar-se para não arranjar
confusão. “É, não tem jeito. Aqui ninguém interage com ninguém.
Vê-se uma multidão totalmente isolada num espaço comum. Teria de
se conectar com pessoas noutro lugar. Este será apenas um
excelente laboratório para eu analisar o perfil psicológico dessas
pessoas esquisitas e de corpos estranhos, mas rezando sempre
para que eu não passe a achá-las normais e até queira ficar igual a
elas.”
Enfim, terminei minha segunda xícara de café e o dela, por
óbvio, esfriou. Exigente como era, devolveu o café e pediu outro
antes de passar para o próximo assunto.
Escritora*
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