domingo, 12 de abril de 2026

PESSOAS ESQUISITAS E DE CORPOS ESTRANHOS


Lyna Bean*

Um dia desses, encontrei a Dani no shopping. Paramos para

tomar um café e fui logo perguntando o que ela andava fazendo nos

últimos meses.

Rapidamente, ela começou a falar sobre a última novidade.

Disse que se matriculou numa das melhores academias de sua

cidade, com dois objetivos principais: livrar-se do personal que lhe

impunha horários fixos de treino e arranjar um paquera.

Continuou falando que, comprou malhas novas e os tênis que

estavam em alta no momento. Estava pronta para a estreia!

Dali por diante, fiquei quieto só ouvindo sua narrativa acerca da

nova academia. Pedi mais um café e disse: - O que você tá

aprontando por lá. Conta tudo!

E assim ela começou:

No primeiro dia, após os procedimentos de praxe –

interrogatório sobre sua vida fitness, impedimentos físicos e

objetivos –, um estagiário, após muitas intervenções suas (“este eu

não posso: inflama minha pata de ganso; esse também não: causa

dor na minha lombar; aquele outro muito menos: tenho tendinite

calcárea com bursite no ombro esquerdo”), prescreveu seu treino,

que foi impresso para acompanhamento apenas nos dois primeiros

dias.

Nos dias seguintes, como já tinha memorizado a ordem das

máquinas, quando entrava no salão e um estagiário se aproximava

dela dizendo: - O que vamos treinar hoje? Já imprimiu seu treino?

Ela num tom entusiasmado, respondia: - Full body. Tá tudo aqui no

HD. Dizia enquanto batia com o dedo indicador na sua própria

cabeça.

Começava a caminhar para pegar os pesos do primeiro

exercício quando ouviu: - Se precisar de algo, é só me chamar,

Senhora. Respondeu: - Obrigada, querido! Embora, em pensamento,

tivesse dito: “Senhora é a sua vovozinha.”

Enquanto executava o primeiro exercício, observava, por meio

do enorme espelho à sua frente, grande parte das pessoas que

estava treinando. Chamou-lhe a atenção, primeiramente, três

homens, na faixa dos 30 aos 40 anos, barbas muito bem feitas,


cabelos bem cortados e o de um deles feito escovinha. Eram super

malhados, de roupas coladíssimas, todas elas numa perfeita paleta

de cores, das quais não fugiam nem os acessórios, como meias e

bandana ou faixa nos cabelos. Do seu lado esquerdo, podia ouvir as

vozes finas de dois rapazes com aparência e vestimenta

semelhantes aos anteriores. Do lado direito, o cabelereiro mais

famoso da cidade malhava com seu personal trainer. Atravessando

a sala para mudar de máquina, deparou-se com um homem mais

velho, barrigudo e com aliança. Mais adiante, com outro bem obeso,

que suava aos pingos, ao fazer sua série, orquestrada por um

personal.

Após mapear oitenta por cento dos homens que treinavam e

concluir que setenta por cento deles era homossexual, vinte heteros

e casados ou obesos e dez muito jovens, passou a observar as

mulheres já com pena delas que, mesmo mais novas, não tinham a

menor chance de arranjar um paquera naquele local. Esse novo

olhar surpreendeu-lhe ainda mais, pois, excluindo as mulheres que,

assim como ela, se encontravam na faixa dos cinquenta mais, e uns

dez por cento de gordinhas, todas tinham corpos excessivamente

malhados, para não dizer masculinizados, a maioria delas com

evidentes traços de consumo de hormônios masculinos. Olhava tão

admirada para aqueles corpos, procurando uma sobra de gordurinha

nas costas, a flacidez da parte interna das coxas ou algumas

celulites, sem nada encontrar, que, certa vez, uma delas passou a

lhe encarar. Ela com vergonha e com medo de estar sendo flertada,

saiu de fininho do aparelho que se encontrava indo para no lado

oposto da sala. Divertia-se com aquilo tudo, ao mesmo tempo em

que lhe parecia muito estranho. Olhava ao redor tentando encontrar

alguém com esteriótipo semelhante ao seu (pessoas que não

aparentassem ser fisioculturistas), mas os que conseguiu identificar,

homens ou mulheres, usavam fones de ouvido. Ela queria conversar,

trocar ideias, comentar sobre algum exercício ou máquina, mas

ninguém estava disposto a isso. Assim, seguia seu treino, falando

em pensamentos e rindo sozinha. Talvez até fizesse caras e bocas

diante do que via, precisando controlar-se para não arranjar

confusão. “É, não tem jeito. Aqui ninguém interage com ninguém.

Vê-se uma multidão totalmente isolada num espaço comum. Teria de

se conectar com pessoas noutro lugar. Este será apenas um

excelente laboratório para eu analisar o perfil psicológico dessas

pessoas esquisitas e de corpos estranhos, mas rezando sempre

para que eu não passe a achá-las normais e até queira ficar igual a

elas.”


Enfim, terminei minha segunda xícara de café e o dela, por

óbvio, esfriou. Exigente como era, devolveu o café e pediu outro

antes de passar para o próximo assunto.



Escritora*

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