domingo, 10 de agosto de 2014

MOTO CONTINUO: ARROCHO DA ECONOMIA, GASTOS PÚBLICOS, CORTE DE SALÁRIOS... *




O capitalismo com as suas contradições modernas e pós-modernas, que coexistem paralelamente, vem enfrentando uma agonia que poucos estudiosos de cenários podem arriscar alguma opinião.
Também não tenho pretensão de pensar em cenários, mas as últimas greves dos trabalhadores da indústria , agora pululando aqui e no primeiro mundo, ensejam mais um momento para reflexão.
Reivindicando  melhores salários e melhores condições de trabalho nada há de tão elementar e justo nesses pedidos.
Vejam como o capitalismo é ingrato. Nos anos 80 a desculpa era que a indústria não reagia devido a falta de incentivos de governos ao norte e ao sul do Equador.
Imersos em crises fiscais, os países não ofereciam estrutura adequada a implantação de parques automobilísticos.
A tecnologia acelerou processos de automação, os empresários donos das montadoras começaram a migrar suas empresas para outros territórios, em face de arranjos econômicos nos países em desenvolvimento.
Bem intencionados? Claro que não. A migração dessas indústrias ocorreu em busca de mão de obra barata e diminuição de custos. As isenções concedidas na verdade funcionam como um financiamento disfarçado com o dinheiro do contribuinte, que por incrível que pareça paga mais imposto, mesmo com salários congelados, pois aumento salarial para trabalhadores é visto como aumento de custos, só isso.
A balela do discurso neoliberal de criação de mais empregos é uma desconsideração à inteligência do trabalhador.
Criam-se empregos de salários baixos em condições até de trabalho escravo. Escravo sim porque começam a ser inseridas no bojo do processo produtivo as famosas terceirizações, que por sua vez utilizam imigrantes desqualificados, que trabalham em troca de comida, de moradia...
E trabalho mal remunerado é ótimo para quem produz a baixo custo.
A solução para isso seria de imediato uma postura de atitudes antiexploração. Ao invés de greve, o trabalhador poderia pensar em largar o papel de alimentador desse sistema injusto.
Há pouco tempo, aqui no Brasil, a mídia divulgou, por exemplo, que uma empresa aérea estava cortando empregos em face do prejuízo acumulado.
Alguns meses depois, tal empresa anunciou um grande investimento comprando muitas aeronaves. Onde estaria o prejuízo alarmado anteriormente? Mas os trabalhadores, alimentadores também de tal sistema injusto, não tem perspectiva de aumento salarial e a contratação dos demitidos também deve estar fora de cogitação. O velho exército de reserva, previsto pelos economistas, fica valendo. Então como uma ciranda, contratam-se novos trabalhadores com menores salários e por ai continua o ciclo.
Por enquanto,  corte de custos  só com trabalhadores, mas se sutilmente estiverem incluindo também cortes nos custos de manutenção das aeronaves? Quem controla isso?
Você, leitor, que talvez estivesse nascendo em 1980, não viu o estrago que Thatcher fez no Reino Unido em nome da privatização neoliberal.
E quem presenciou talvez não se lembre que Alan Budd, conselheiro de Margareth Thatcher, admitiu que "as políticas dos anos de 1980 de ataque à inflação com o arrocho da economia e gastos públicos foram um disfarce para esmagar os trabalhadores, e assim criar um exército industrial de reserva" (HARVEY, David. O Enigma do Capital, 2012, p.21, editempo editorial).
Infelizmente, o trabalhador novato, ávido por colocação no mercado, acredita na mensagem do CEO, que sempre é mais velho, de que o problema é a folha de salário dos mais velhos e experientes. Então como prostitutas, esses velhos e experientes são trocados por mais novos, que vão fazer o mesmo serviço, ou talvez até mais, por menos, ou seja, reinicia-se um novo ciclo, onde os novos de hoje serão os velhos e experientes de amanhã, que serão trocados...
E, pasmem, essa visão vem sendo implantada no serviço público aqui no Brasil, criando inconscientemente antagonismo entre os novos e antigos trabalhadores, quando o problema não enfrentado é a desvalorização da boa prestação de serviços, onde se aposta na desunião da classe e sucateamento da máquina administrativa.

Sobre a intersecção entre Trabalho e Prostituição tratarei numa próxima resenha.



Boanerges Cezário
Blogueiro, 
Estudante de Geografia
UFRN

domingo, 3 de agosto de 2014

Como Fazer Artigo Cientifico, Tcc, Monografia de Pos, Dissertacao e Tese

http://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2014-06-19/saiba-como-fazer-artigo-cientifico-tcc-monografia-de-pos-dissertacao-e-tese.html

terça-feira, 15 de abril de 2014

UTILITARISMO PETISTA




Boanerges Cezário*
            As dúvidas que pululam na cabeça dos petistas atuais são partes de um processo que se comparado a existência de um ser humano são perfeitamente  explicáveis.
            O quer perturba mais o pensamento PTiano (ou petista) é que em cada fase da existência o indivíduo passa degrau a degrau para chegar a maturidade.
            Antes da maturidade, vem a amamentação com cuidados médicos e maternos. Esse período foi o início dos anos 80, depois de várias lutas históricas, vários movimentos grevistas, liderados pelo ex-Presidente Lula e outas figuras que gravitam em torno do bloco do poder, governista ou quase.
            A adolescência, marcada pela rebeldia, foi  construída nos anos 90, onde o PT iniciava o caminho, que longo caminho, ao poder.
            Tudo conspirou para que o PT chegasse ao poder com Lula em 2002.
            Se vivo fosse, Comte poderia comparar esses três momento com as leis do três estados.
           (...)

quarta-feira, 26 de março de 2014

O NOVO SEMPRE VEM?



OLIGARQUIAS POTIGUARES: O NOVO SEMPRE VEM?
Boanerges Cezário*
Abrindo o Dicionário Didático do Ensino Fundamental aleatoriamente, deparei-me com o vocábulo OLIGARQUIA.
Ali está consignado que se trata de “ 1 um sistema de governo em que um pequeno grupo de pessoas, pertencentes ao mesmo partido, família ou classe, possui o domínio cultural, social e político de um lugar, geralmente apenas visando os benefícios próprios. 2 Estado que tem esse sistema de governo 3 Grupo minoritário de pessoas que dirige e controla uma organização, instituição ou coletividade, geralmente apenas visando os benefícios próprios.”
No Blog do Professor Marcílio Moreira (http://marciliomoreira.blogspot.com/2011/04/oligarquias-no-rn-pode-ate-mudar-um.html) há uma opinião do também professor José Lacerda Alves Felipe, que diz:
“as oligarquias do estado dão apenas um “verniz” ao velho modelo de fazer política. “No Rio Grande do Norte, as oligarquias fazem um processo de modernização e renovação sem promover mudanças. A renovação é feita por familiares, o que faz com que as famílias se mantenham no poder. Há uma renovação do quadro político, mas não há mudança”, diz o geógrafo. “O grupo oligárquico permanece, com pessoas mais abertas, o que dá impressão de transformação, mas ela não ocorre”, acrescenta.
Assim, nós eleitores das plagas norteriograndenses estamos sempre pensando que podemos mudar o estado de coisas para melhor. Ledo engano.
O eleitor potiguar, que não é diferente da média nacional em matéria eleitoral, costuma votar sem saber o porquê daquele candidato querer ser eleito, os reais interesses do novo, os reais propósitos de políticos que se propõem à realização de mudanças.
Fantasiados de salvadores da pátria, os descendentes se apresentam como a solução para todas as mazelas do Estado.
Não é necessário citar nomes, basta ler as colunas políticas, para a próxima campanha municipal, ou estadual, para ver nos candidatos a candidatos como seus sobrenomes lembram algum avô, pai, tio, irmão, sobrinho e por ai vai.
Eles têm culpa no cartório? Não, claro que não. Os eleitores é que se inebriam com mensagens de mudança. Alguns (os espertalhões) votam porque querem auferir alguma vantagem sobre as combalidas contas de governo, alimentadoras de pseudo-empresários. Esses, enriquecem nas licitações fraudulentas e gostam de se vangloriar dizendo que são “empresários”, que “não suportam servidores públicos”, ou seja, pensam que são empreendedores da iniciativa privada, quando na verdade não passam de bibelôs, piores que os barnabés de carreira, pois quando muda a família instalada no poder, curiosamente tais empresas fecham e seus donos também somem do meio empresarial.
Em casos de greve de professores, por exemplo, os governadores, prefeitos e outros parecidos não se comovem muito com um professor ganhando pouco, com as condições precárias das escolas. E faz sentido, porque na verdade essa elite estudou nos melhores colégios daqui, de Recife, do Rio, de Brasília, então para que se preocupar com isso?  -Alguém já viu os filhos dessas autoridades estudando em colégios públicos estaduais ou municipais?
Em relação à saúde do cidadão, também não se preocupam esses tradicionais políticos, pois quando necessitam vão a São Paulo, Rio ou até o exterior para se cuidarem. Ou alguém já viu um Prefeito, Governador na fila do SUS ou requerendo na Justiça o Direito de ser atendido, de realizar uma cirurgia?
Belchior em uma de suas músicas diz “que o novo sempre vem”, mas aqui vem de uma forma diferente, vem maquiado, penteado, fabricado pela mídia como a cara da mudança.
Para mudar esse quadro, o eleitor precisa quebrar o paradigma de votar em famílias tradicionais e ter coragem para depositar nas urnas um voto de confiança nas novas caras da mudança (e não nas coroas oligárquicas e suas descendências).
Será que somos um Estado de eleitores incompetentes? Que tal eleger alguém novo de verdade? Que tal quebrar regras e inovar?
Eleição custa caro.


* Estudante de Geografia


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

domingo, 15 de dezembro de 2013

A GEOGRAFIA NA LITERATURA DE JOSÉ LINS DO REGO



Breve introito
            Quando se fala sobre relações entre os ramos do conhecimento, a princípio vislumbra-se desde já a noção de sistema e complexidade do mundo pós-moderno.
            O porquê de tantas construções teóricas é o que faz a atividade reflexiva sistematizar ideias e conceitos.
            Assim, quando estamos diante de temas tão diversos, como Literatura e Geografia, é necessário entender que ao mesmo tempo aparentemente diferentes, são ligados e conectados sob diversas formas.
            Explica-se isso quando vemos as transformações sofridas pelas artes, a literatura criadora se configura como um elemento confirmador de tais mudanças.
            Ao contrário do que muita gente pensa, a literatura deixou de ser pensada sob a óptica da mera produção e digamos contemplação neutra.
            Há um sentido novo na visão atual do que vem a ser literatura, quando ela passa a ser vista sob outras perspectivas como não só canal de emoções e desejos, mas também de interpretação e crítica da realidade social.
            Intrinsecamente ligada a tudo, ou quase tudo, a literatura não é esperada nem vista como contemplação ou venda de ilusão em capítulos ou formas poéticas.
            A busca hoje é pela práxis pelo fazer e até certo ponto abrir os olhos do leitor, que sendo crítico pode refletir sobre suas posições e não o sendo, o faz mergulhar no tormentoso campo da reflexão proativa.
            Todo o contexto atual é para enfatizar que a sociedade se industrializa, a atividade humana se “desumaniza”. Então, a partir dai a literatura vai  abandonando a imagem neutra, o artista só “artista”, delineando-se no seu estandarte críticas e novas construções para a nova realidade ou novas parametrizações de conceitos e modos de vida.
            Embates de arte pela arte contra a arte engajada estão a cada dia mais polarizados, posto que tal discussão está no cerne do próprio movimento literário.
            Essa simetria é problemática, mas não incontornável.
            Ora, não se imagina o literata e sua obra como livres de influências, tão pouco não se deve sacrificar o trabalho proposto numa obra literária em prol de ativismo.
            Há que existir convivência e delimitação do que seja isso ou aquilo para não cairmos no campo do patrulhamento ideológico dos dois lados antagônicos, ou seja, o da literatura “pura” e o da literatura “engajada”.            
É por isso que modernamente, em face da procura de atualizadas formas de compreensão do mundo a nossa volta, a ação e procura crescente em atender e replicar às questões atuais presentes na ciência fortaleceu a aproximação entre a Geografia e a Literatura.
 Aos geógrafos oportuniza-se uma grande variedade de alternativas, onde a é a abordagem cultural demarca a literatura como uma das saídas, sem subterfúgios,  para compreender as relações humanas influenciando sem dúvida na própria organização espacial.
Chaui (2012) assevera bem o mote dessa nova preocupação. Para esta autora, por exemplo,
“A discussão sobre a relação arte-sociedade levou a duas atitudes filosóficas opostas: a que afirma que a arte só é arte se for pura, isto é, se não estiver preocupada com as circunstâncias históricas, sociais, econômicas e políticas – a “arte pela arte” -, e a que afirma que o valor da obra de arte decorre de seu compromisso crítico diantes das circunstâncias presentes. Trata-se da ‘arte engajada’, na qual o artista toma posição diante de sua sociedade, luta para transformá-la e melhorá-la, e para conscientizar as pessoas sobre as injustiças e as opressões do presente.” (CHAUI, 2012, P. 255)

            Tal posicionamento quanto a associação da literatura e Geografia interpretação  tornam-se, para o geógrafo humanístico matéria investigativa, pois são evidenciados a condição humana, as mazelas sociais,  econômicas e até as diferentes meios físicos de determinada área retratada. Por ser assim, é inconteste que a obra literária testemunha a realidade, associa grupos humanos em determinado lugar.

Nesse diapasão, citando Wanderley (1998), Olanda & Almeida (2008) assim se manifestam:
(...) Com suas criações os escritores refletem uma visão de vida, de espaço, de homem e de lugares de uma determinada sociedade em certo período. Assim posto, as obras literárias revelam-se fontes para a compreensão da experiência humana. Estudos por Wanderley (1998)









A evolução conectiva Literatura x Geografia

            A Literatura é parte integrante de nossas vidas e ao mesmo tempo é instrumento para a aquisição de conhecimento nas áreas do saber, dentre eles o geográfico.
            A Geografia atual se imbrica mesmo com a Literatura e traz ou provoca respostas aos desafios diante de tantas complexidades do mundo do conhecimento.
            Na obra de José Lins do Rego, no caso o romance Menino de Engenho, fica evidente e cadenciado que o texto ali desenvolvido confirma a ideia.
            Ali dentro do universo complexo e heterogêneo do Nordeste, dialeticamente a narrativa transfere uma concepção dolorosa e paralelamente melodiosa do mundo dos engenhos.
            Castello (1979), na introdução do Menino de Engenho,  salienta questionando :
Teria sido essa obra geratriz. Menino de engenho, determinada somente pela exigência da memória ou teria sido algum estímulo literário no sentido de acentuar contrastes de perspectivas da experiência de uma mesma idade? (CASTELLO, 1979, P.X)
(...)
Ao contrário, com José Lins do Rego, o romance que escreve se impregna de ternura e intensa de ternura e intensa humanidade, realmente dominado pela nostalgia do ambiente do engenho sob a decadência do poderio da civilização açucareira (CASTELLO, 1979, p. XI)

            É nesse tom que bem esclarece Claval (1999,p.55),quando explana:
O romance torna-se algumas vezes um documento: a intuição sutil dos romancistas nos ajuda a perceber a região (grifei) pelos olhos dos personagens e através de suas emoções. Os trabalhos sobre o sentido dos lugares (grifei) e sobre aquilo que a literatura ensina a este respeito são numerosos no mundo anglo-saxão desde o início dos anos 1970.

            O que fica bem evidente é que a cadência da narrativa em Menino de Engenho consiste na apreensão também de aspectos geográficos, onde a região se encontra e se define em contrastes constantes. Há a potência da cana-de-açúcar, mas ao mesmo tempo fatos ligados a seca.
           


Para atestar todo o acima exposto, vejamos alguns excertos do livro Menino de Engenho para chegarmos ao fim a  um arremate conclusivo:

Daquele banho ainda hoje guardo na lembrança à flor da pele. De fato que para mim, que criara nos banhos de chuvisco, aquela piscina cercada de mata verde, sombreada por uma vegetação ramalhuda, só poderia ser uma coisa do outro mundo. (p. 11)
No texto acima, sutilmente, comparando ao que se tem hoje, podemos refletir numa leitura crítica sobre a escassez e poluição da água. Não temos hoje uma descrição tão límpida dos recursos naturais em face da degradação ambiental.
Sob os olhos do Escritor e menino de engenho aparece um símbolo místico do real e também imaginário micro universo da violência inserta no semiárido nordestino. Como provocação há uma linha de lembrança quase romântica do que seria um fora da lei daquela época se compararmos a atualidade, como colhemos abaixo:
Para os meninos, a presença de Antônio Silvino era como se fosse a de um rei das nossas histórias, que nos marcasse uma visita. Um dos nossos brinquedos mais preferidos era até o de fingirmos de bando de cangaceiros, com espadas de pau e cacetes no ombro, e o mais forte dos nossos fazendo de Antônio Silvino. (p.18)
            É indubitável a beleza narrativa pensada sob a óptica geográfica, quando num trecho só, o autor engloba manifestações relativas ao solo, formações vegetais, água, economia, climatologia, dentre outros fenômenos peculiares a região onde se desencadeia a trama memorialista:
Lá um dia, para as cordas das nascentes do Paraíba, via-se, quase rente do horizonte, um abrir longínquo e espaçado de relâmpago: era inverno na certa no alto sertão. As experiências confirmavam que com duas semanas o Paraíba apontaria na várzea com a sua primeira cabeça-d’água. O rio no verão ficava seco de se atravessar a pé enxuto. Apenas, aqui e ali, pelo seu leito, formavam-se grandes poços, que venciam a estiagem. Nestes pequenos açudes se pescava, lavavam-se os cavalos, tomavam-se banho. Nas vazantes plantavam batata-doce e cavavam pequenas cacimbas para o abastecimento de gente que vinha das caatingas, andando léguas, de pote na cabeça. O seu leito de areia branca cobria-se de salsas e junco verde-escuro, enquanto pelas margens os marizeiros davam uma sombra camarada nos meios-dias. Nas grandes secas o povo pobre vivia da água salobra e das vazantes do Paraíba. O gado vinha entreter a sua fome no capim ralo que crescia por ali. Com a notícia dos relâmpagos nas cabeceiras, entraram a arrancar as batatas e os jerimuns das vazantes. (p.24)

Logo adiante se vê:
Meu avô, em pé, olhava de uma ponta da calçada as suas plantas de cana submersas, a sua safra quase toda perdida. Mas não se lastimava, porque sabia que riqueza em limo lhe trouxera o rio para suas terras. Ele mesmo dizia. (p.28)


A tragédia ambiental também lastreia o romance com suas consequências, assim exposta:
O engenho e a casa de farinha repletos de flagelados. Era a população das margens do rio, arrasada, morta de fome, se não fossem o bacalhau e a farinha seca da fazenda. Conversaram sobre os incidentes da enchente, achando graça até nas peripécias de salvamento. (p.31)
Até aspectos que retratam temas relativos a infraestrutura a condução narrativa mostra um tempo em que o sistema de transporte no Brasil tinha um bom referencial para atender as suas necessidades. Vemos isso, quando o texto apresenta relatos assim:
A estrada de ferro passava no outro lado do rio.
Do engenho nós ouvíamos o trem apitar, e fazia-se de sua passagem uma espécie de relógio de todas as atividades: antes do trem das dez, depois do trem das duas. (p.45)
A riqueza da obra de José Lins do Rego
Restava ainda a senzala dos tempos do cativeiro.
Uns vinte quadros com o mesmo alpendre na frente. As negras do meu avô, mesmo depois da abolição, ficaram todas no engenho, não deixaram a rua, como elas chamavam a senzala. (p.54)
E lá para frente, numa brilhante comunhão entre a Literatura e Geografia, a beleza do texto prova com maestria a perfeita e necessária conexão dos dois ramos de saberes:
O santa Fé, porém, resistira a essa sua fome de latifúndios. Sempre que via aqueles condados na geografia (grifei), espremidos entre grandes países, me lembrava do Santa Fé. (p.76)



Em conclusão

            Pelo acima exposto, é indiscutível que o arcabouço literário proposto por José Lins do Rego na obra em comento, apresenta diversos momentos onde se misturam o literata ao mundo do geógrafo.
            Em síntese, o Menino de Engenho aborda a seca, o coronelismo, exploração,  movimentos migratórios, família patriarcal, fanatismo religioso, crise dos engenhos, ascensão social,  o cangaço, numa atmosfera pitoresca recheada de uma envolvente narrativa, mas que dentro de uma visão geográfica, não necessariamente intencional, mas que enriquece a visão holística que temos de ter, haja vista as conexões tão evidentes entre os  diversos ramos do conhecimento.
            Obviamente que não se sabe, repito,  se intencionalmente, mas a Geografia aparece com vigor na descrição contida, quando o curso do romance se desencadeia dentro de uma paisagem inserida num território delineado, onde o espaço vivido numa específica região.